

O MESTRE DO RIO
PERSONAGENS: ISRAEL (65): Pescador veterano, mãos calejadas, olhar cansado, mas digno. HONORATO (40): Amigo fiel de Israel. Um pouco manco, mas de sorriso fácil. GASPAR (50): Pescador jovem, arrogante e musculoso. O líder dos que humilham Israel. PESCADORES: Grupo que segue Gaspar. CENA 1: MARGEM DO RIO - DIA O sol está começando a esquentar. O som da água batendo nas pedras. ISRAEL (65) tenta puxar uma rede quase vazia. Ele tosse, o esforço é visível. Ao longe, um barco a motor de madeira se aproxima em alta velocidade, criando ondas, que faz o pequeno bote de Israel balançar perigosamente. GASPAR (50) e dois outros pescadores riem no barco motorizado. GASPAR Cuidado, vovô! Se cair na água as piranhas nem vão querer esse couro velho! Eles passam rindo. Israel se equilibra como pode. Ele olha para a rede: apenas dois peixes pequenos e muito mato. HONORATO (40) aparece caminhando pela margem, carregando um balde. Ele vê a cena e balança a cabeça negativamente. HONORATO Não liga pra eles, Israel. O mar corre no sangue deles, mas o rio... o rio não esquece quem o respeita. ISRAEL O rio está ficando surdo para mim, Honorato. Ou talvez eu que já não saiba mais falar a língua dele. Israel desce do bote com dificuldade. Honorato estende a mão para ajudá-lo. CENA 2: CABANA DE ISRAEL - NOITE Uma construção simples de madeira. Luz de lampião. Israel e Honorato dividem um prato de peixe frito e farinha. HONORATO Amanhã o vento muda. Eu sinto na minha perna. Vai ser um dia bom. ISRAEL Espero que sim. Se eu não levar algo decente pro mercado, não pago nem o sal da comida. Israel olha para suas mãos trêmulas. O silêncio da noite é pesado. CENA 3: MARGEM DO RIO - AMANHECER Uma névoa baixa cobre a água. Israel caminha solitário por um trecho do rio onde ninguém costuma pescar — uma área cheia de rochas e correnteza traiçoeira. Ele tropeça em algo. Ao olhar para o chão, entre o lodo e o cascalho, ele vê um reflexo estranho. Não é o sol. É um brilho azulado, pulsante, vindo de dentro de uma pedra ovalada, do tamanho de um coco. Israel se ajoelha. A lama escorre entre seus dedos. Ele limpa a pedra. Ela emite um calor suave. CENA 4: CABANA DE ISRAEL - DIA Israel entra apressado, trancando a porta. Ele coloca a pedra sobre a mesa de madeira bruta. Ela ilumina o ambiente rústico com um tom místico. Ele pega um martelo pesado. Hesita. Respira fundo. ISRAEL Seja o que o rio quiser. Ele golpeia a pedra. No terceiro impacto, ela se parte perfeitamente ao meio. Dentro, não há minério comum. Há um compartimento oco contendo uma CHAVE DE BRONZE antiga e um pedaço de COURO enrolado. Israel desenrola o couro. É um MAPA. Desenhos detalhados de uma formação rochosa conhecida como "A Garganta do Diabo" — uma caverna escondida atrás de uma queda d'água. CENA 5: A GARGANTA DO DIABO - DIA O som da cachoeira é ensurdecedor. Israel rema seu bote com uma força que parecia ter perdido há décadas. Ele atravessa a cortina de água. Atrás dela, uma entrada estreita. Israel desembarca. Ele acende uma tocha. O mapa o guia por corredores úmidos até uma porta de pedra maciça com uma fechadura de bronze oxidada. Ele insere a chave. Ela gira com um som metálico pesado. A porta se abre. O brilho lá dentro é dourado. Baús de madeira apodrecida revelam moedas de ouro, joias e artefatos de uma época esquecida. Israel fica paralisado. A luz do tesouro reflete em suas lágrimas. CENA 6: TRAPICHE DA VILA - DIA SEGUINTE Israel chega no seu bote velho, mas algo está diferente. Ele veste uma camisa limpa e caminha com as costas eretas. O boato correu rápido. As pessoas cochicham. Gaspar e seu grupo estão no trapiche. Eles viram Israel carregando sacos pesados para dentro de sua cabana durante a madrugada. Gaspar se aproxima, com um sorriso falso e asqueroso. GASPAR Mestre Israel! Estávamos agora mesmo falando do senhor. Que bom vê-lo bem! Precisa de ajuda com as redes? Meu barco está à disposição. Outro pescador se aproxima, oferecendo um cigarro. PESCADOR 2 O senhor sempre foi um exemplo pra nós, Israel. A gente só brincava porque te admira. Israel para e olha para cada um deles. O silêncio dura uma eternidade. Honorato aparece ao fundo, observando tudo, encostado em um poste de madeira, sem dizer nada, apenas feliz pelo amigo. ISRAEL (Para Gaspar) Engraçado como o rio traz os peixes grandes para perto da gente quando o mel aparece, não é? GASPAR (Meio sem jeito) O que é isso, Israel... somos amigos! O que é do rio é de todos, certo? Israel dá um passo à frente. ISRAEL O rio me deu um tesouro. E ele também me deu memória. Israel ignora o grupo de Gaspar. Ele caminha em direção a Honorato. ISRAEL Honorato, meu irmão. Venha comigo. Israel coloca a mão no ombro do amigo. ISRAEL (CONT.) Lembra que você disse que o vento ia mudar? Ele mudou. E nós vamos comprar o maior barco que este rio já viu. Mas só há lugar para dois nele. Eles começam a caminhar. Gaspar tenta segurar o braço de Israel. GASPAR Mas e nós? O senhor não vai dividir a sorte? Israel para, olha para a mão de Gaspar em seu braço até que ele a solte. ISRAEL Eu dividi minha pobreza com vocês e recebi risadas. Agora, dividam minha ausência e recebam o silêncio. Israel e Honorato seguem caminho. O grupo de pescadores fica para trás, no sol quente do trapiche, olhando para a água que agora parece mais vazia do que nunca. Fim.
BADÚ LYMAH
Enviado por BADÚ LYMAH em 11/01/2026
Alterado em 13/01/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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